terça-feira, 26 de maio de 2009

O Amor do Rui

Mais um fim-de-semana cheio de calor. Desta vez o Rui não perdeu a oportunidade, meteu-se no comboio e foi até à praia. Perguntou ao Gonçalo se também queria ir, mas desde aquele dia, desde o dia em que conversou com ele, que o Gonçalo não lhe liga nenhuma. Felizmente a Joana estava sempre pronta para ir até à praia e era uma boa companhia.
- Estás com uma cara! Que se passa? – Quis saber a Joana, durante a viagem de comboio.
- Nada! – Respondeu o Rui evitando falar no assunto. Mas na verdade estava mortinho por contar tudo à Joana e de uma vez por todas livrar-se daquele peso. Afinal o que tinha dito ao Gonçalo era a mais pura das verdades e agora parecia que tinha perdido o maior amigo.
- Mas estás chateado comigo? Que foi que eu te fiz? – Respondeu a Joana com a voz triste.
- Não Joana, não é nada contigo! Esquece! – Respondeu tristemente.
- Então se não é comigo, com quem é que estás chateado? E porque te chateaste? És um porreiro, porquê isso agora?
- Deixa! Não ligues. Isto já passa. Com este dia de praia, esqueço tudo – E o Rui tratou de fazer um sorriso, de modo a parecer bem-disposto.
Saíram na estação mais perto da praia e depois de caminharem pelo passadiço foram até à areia, na tentativa de arranjar um lugar. Estenderam as toalhas e a Joana começou a besuntar-se toda com um protector solar de cheiro intenso a côco.
- Deixas-me usar? – Pediu o Rui.
- Claro! Mas não te incomoda este cheiro? – Perguntou a Joana.
- Não, até gosto! – Respondeu o Rui, ao agarrar no frasco.
Depois de um mergulho no mar, os dois amigos estenderam-se a secar, debaixo de um sol escaldante. Passado pouco tempo, porque já estavam secos, decidiram voltar a pôr o protector solar.
- Já estás mais bem-disposto? Ultimamente tenho-te achado tão triste. Queres falar? – Tentou outra vez a Joana.
- Querer, eu até quero, mas não sei se devo. Estou muito confuso e ainda não falei com mais ninguém. Mas começa a ser muito doloroso para mim. Posso confiar em ti, Joana? Não contas a ninguém? – Pergunta o Rui, receoso.
- Já me conheces Rui: se o assunto é sério, eu não falo nada a ninguém. – Respondeu a Joana.
Mas as palavras tinham dificuldade em sair da boca do Rui. O que iria pensar a Joana? Valia a pena falar? Ainda seria gozado e humilhado. Que aquilo não era normal, não era! Nem se atrevia a contar a mais ninguém. O que diriam os pais? O que diriam os amigos? Era tão difícil para ele próprio aceitar esta situação. Porquê ele? Nunca tal lhe tinha acontecido antes. Mas face àqueles sentimentos sentia mesmo a necessidade de desabafar.
- Não tenhas medo, Rui, eu não conto nada, desembucha… e não fiques assim. Tanta tristeza! – Disse a Joana passando a mão pelos ombros do Rui.
Com uma força que não sabe donde vinha o Rui despejou:
- Estou apaixonado …… pelo Gonçalo! Pronto, já disse!
- Que bom Rui! Estar apaixonado é sempre muito bom. E já lhe disseste? – Respondeu a Joana com toda a naturalidade.
- Não ouviste Joana? Estou apaixonado por um rapaz, pelo Gonçalo! – Ripostou o Rui com agressividade.
- Ouvi sim. E depois? O que é que tem? Para mim é perfeitamente normal. O que conta é o sentimento. E o amor é lindo! – Disse a Joana com um tom amoroso.
- Mas sinto-me um anormal! Nunca me aconteceu isto. Não paro de pensar nele. Só tenho vontade de estar com ele. – Respondeu o Rui muito depressa.
- Claro, isso é paixão! – Declarou a Joana cheia de certezas. – Já falaste com ele? Já lhe disseste?
- Já! E ele quase me deixou de falar. Não quis vir à praia, não sai comigo. Acho que o perdi de vez… - Disse o Rui triste.
- Calma! Tens que lhe dar tempo para se habituar à ideia. E… tens de pensar que… se calhar não é um sentimento recíproco. – Disse a Joana a custo.
- Pois, isso ainda me deixa mais triste. Eu não consigo viver sem ele, faz-me tanta falta. Só penso nele, queria estar sempre com ele. Morro de saudades. Quando éramos amigos estávamos sempre juntos, mas desde que lhe contei, perdi-o. Sinto-me tão mal, estou mesmo desesperado, só tenho vontade de desaparecer, de morrer. Ao menos desapareço de vez e não sofro mais, não faço sofrer ninguém. – Disse o Rui com as lágrimas nos olhos.
- Tem calma, Rui. Não fiques assim. A vida é assim mesmo: nem sempre amamos a pessoa certa. Nem sempre somos correspondidos no amor, mas isso não quer dizer que não devemos continuar a procurar o nosso amor. – Respondeu a Joana sabiamente.
- Sim, mas se fosse uma rapariga, era diferente… – Disse o Rui triste.
- Nem penses! Era a mesma coisa. Quem te garante que era uma paixão correspondida? É a mesma coisa Rui. O amor verdadeiro não tem sexo, cor de pele, ou idade. – Lembrou a Joana.
- Eu sei, mas… Está tão difícil de aguentar. Só me apetece morrer… - disse o Rui quase a chorar.
- Oh Rui! – Exclamou a Joana. – Por favor não digas isso, até fico assustada. Eu gosto tanto de ti e não te quero perder. Por favor… Não fiques assim. Se o Gonçalo não gostar de ti, então ele não te merece!
Mas o Rui não dizia nada. A tristeza inundou-o. A situação parecia ser impossível de resolver. Porque é que amar alguém fazia doer tanto?
- Eu vou falar com o Gonçalo e vamos ver como ele reage. Não te importas, pois não? – Disse a Joana.
- Sei lá! Faz o que quiseres. – Respondeu o Rui em desespero.
- Ok! - Disse a Joana decidida. – Então hoje mesmo vou conversar com o Gonçalo e ver o que ele diz. Não desesperes, tudo se há-de resolver.